Evangélicos chegam às eleições de 2026 com forte inclinação à direita, alta rejeição ao governo federal e fé presente na escolha do voto
Pesquisa Evangélica Nacional 2026, da Valentes Intel, ouviu 14.933 pessoas nos 27 estados e revela um eleitor interessado em política, majoritariamente identificado com a direita, crítico ao governo federal e que considera a fé relevante na hora de escolher seus candidatos — mas que, em sua maioria, afirma não seguir indicações de pastores.
Às vésperas das eleições de 2026, um amplo levantamento sobre o comportamento dos evangélicos brasileiros ajuda a dimensionar o peso da política, da ideologia e da fé nas decisões desse segmento. A Pesquisa Evangélica Nacional 2026, realizada pela Valentes Intel, reuniu uma base final de 14.933 respondentes, com participação nos 27 estados brasileiros.
O levantamento foi realizado de forma on-line e voluntária. Segundo a Valentes Intel, os dados passaram por pós-estratificação para ajustar a distribuição da amostra. Reportagens sobre o estudo informam que a ponderação utilizou o método Raking (IPF), com calibração por sexo, região, escolaridade, renda e raça/cor, tendo como referências o Censo 2022 e a PNAD Contínua 2024. Por se tratar de uma coleta voluntária pela internet, os resultados devem ser interpretados dentro desse desenho metodológico e não como uma pesquisa eleitoral de intenção de voto.
Avaliação do governo: 77,4% classificam como ruim ou péssimo
Um dos números mais expressivos aparece na avaliação do governo federal. Entre os entrevistados, 65,6% classificam o governo como “péssimo” e 11,8% como “ruim”. Somadas, as duas avaliações negativas chegam a 77,4%.
Outros 8,2% consideram o governo regular. Portanto, se forem agrupadas as avaliações negativas e regular, chega-se a 85,6% de avaliações que não são positivas. É importante fazer essa distinção: tecnicamente, “regular” não deve ser apresentado como rejeição ou avaliação negativa. O dado mais seguro para medir avaliação negativa é, portanto, 77,4%.
Na outra ponta, 6,7% avaliam o governo como “bom” e 5,7% como “ótimo”, totalizando 12,4% de avaliações positivas, segundo os números apresentados no levantamento.
O resultado aponta para um ambiente de forte avaliação negativa do governo federal dentro da amostra evangélica pesquisada. Esse quadro também é compatível, embora não diretamente comparável, com outras pesquisas realizadas em 2026 que encontraram desaprovação elevada do governo entre entrevistados evangélicos. Uma pesquisa Genial/Quaest de fevereiro, por exemplo, registrou 61% de desaprovação nesse segmento; trata-se, porém, de metodologia, período e pergunta diferentes.
Direita concentra 74,8% das respostas
A identificação ideológica é outro ponto de destaque. Quando as respostas da escala política são agrupadas, 74,8% dos participantes se posicionam à direita, considerando as posições 6 e 7. A esquerda, posições 1 e 2, reúne 10,3%, enquanto 9,2% aparecem no centro. Outros 5,7% não souberam responder ou não se posicionaram.
Os resultados divulgados sobre a pesquisa confirmam esses percentuais e mostram que a identificação à direita é particularmente expressiva entre os participantes do levantamento.
Isso não significa, entretanto, que 74,8% votarão necessariamente em candidatos de direita. Identificação ideológica e intenção de voto são medidas diferentes, e a Pesquisa Evangélica Nacional não deve ser interpretada como uma pesquisa eleitoral capaz de determinar automaticamente em quem esse público votará.
Fé influencia a decisão política de 80,4% em algum grau
Se a identificação ideológica é clara, a influência religiosa também aparece com força.
Questionados sobre quanto a fé influencia suas opiniões políticas, 64,5% responderam “muito” e outros 15,9% disseram “um pouco”. Somados, 80,4% afirmam algum grau de influência da fé.
Em sentido contrário, 12,8% afirmam que a fé não influencia em nada suas opiniões políticas, enquanto 6,8% responderam “pouco”.
O resultado sugere que religião e política estão relacionadas para grande parte dos entrevistados, mas a própria pesquisa apresenta uma nuance importante: considerar a fé na decisão política não significa necessariamente aceitar que uma liderança religiosa determine o voto.
Maioria diz nunca ter votado em candidato indicado por pastor
Essa diferença fica evidente em outra pergunta do levantamento. 71,2% afirmaram nunca ter votado em um candidato indicado por pastor ou liderança religiosa. Outros 22,6% disseram que já fizeram isso, 5,1% não se lembram e 1,1% não souberam responder.
É um dos contrastes mais interessantes da pesquisa: ao mesmo tempo em que a fé exerce influência relevante sobre a visão política, a maioria dos entrevistados declara autonomia em relação à indicação direta de líderes religiosos.
Outro dado divulgado a partir do levantamento reforça essa separação: 52,5% dos entrevistados são contrários a que as igrejas tratem de política durante os cultos, enquanto 33,4% são favoráveis.
Assim, os números descrevem um público no qual fé e política frequentemente se relacionam, mas isso não equivale automaticamente à aceitação do uso do púlpito para orientação eleitoral.
Economia lidera prioridades, mas valores cristãos e costumes têm peso expressivo
Na pergunta sobre o que tem prioridade na hora de votar, 32,6% apontaram as propostas econômicas, colocando o tema na primeira posição.
Em seguida aparecem defesa dos valores cristãos, com 25,5%, costumes e valores morais, com 18%, e combate à corrupção, com 16,8%. Outros assuntos somam 4,6% e 2,6% não souberam responder.
Como as categorias são distintas na pergunta, é possível observar que valores cristãos e valores morais/costumes, considerados conjuntamente como temas de valores, correspondem a 43,5% das prioridades declaradas. Esse agrupamento é uma leitura analítica e não uma categoria original criada pela pesquisa. Os percentuais individuais divulgados pelo levantamento são 25,5% e 18%, respectivamente.
O dado revela uma composição mais complexa do eleitor evangélico: a economia aparece como a principal categoria isolada, enquanto questões relacionadas à fé, valores e costumes ocupam conjuntamente espaço relevante.
Evangélico acompanha política, mas não necessariamente quer política no púlpito
Também chama atenção o grau de interesse pelo assunto. 53,1% dizem ter muito interesse por política e 28,9% afirmam possuir algum interesse. Juntos, representam 82% dos entrevistados com algum ou muito interesse político. Apenas 12,9% dizem ter pouco interesse e 5,1%, nenhum.
Esse resultado, combinado com os demais indicadores, apresenta um quadro que foge de uma leitura simplificada do chamado “voto evangélico”.
Há uma forte predominância da identificação com a direita (74,8%), uma avaliação negativa do governo federal de 77,4%, influência declarada da fé em diferentes graus para grande parcela dos entrevistados e peso relevante de valores cristãos e morais na decisão eleitoral. Ao mesmo tempo, 71,2% dizem nunca ter votado em candidato indicado por pastor, e a maioria dos pesquisados rejeita política dentro dos cultos.
Um eleitorado relevante, mas que não deve ser tratado como bloco único
A pesquisa chega ao debate público em um momento especialmente importante. Dados do Censo 2022 apontaram que os evangélicos correspondiam a 26,9% da população brasileira de 10 anos ou mais, contra 21,6% em 2010.
Isso ajuda a explicar por que o segmento ocupa posição de destaque nas estratégias políticas e eleitorais.
Os números da Pesquisa Evangélica Nacional 2026, porém, também recomendam cautela diante da ideia de que exista um “voto evangélico” único e automaticamente transferível por igrejas ou lideranças.
O retrato produzido pelo levantamento é o de um público majoritariamente identificado com a direita e bastante crítico ao atual governo federal, no qual a fé ocupa espaço importante na formação das opiniões políticas. Mas os próprios resultados mostram que influência religiosa, identificação ideológica e obediência a uma indicação eleitoral não são a mesma coisa.
Às vésperas das urnas, talvez essa seja uma das informações mais relevantes trazidas pelo estudo: compreender o eleitor evangélico exige observar simultaneamente economia, valores, fé, ideologia, avaliação de governo e autonomia individual do voto — dimensões que convivem e nem sempre apontam exatamente na mesma direção.
Fonte: Pesquisa Evangélica Nacional 2026 — Valentes Intel. Dados ponderados (%), base limpa n = 14.933. A Valentes informa que a pesquisa teve abrangência nacional, participação on-line e processo de ponderação dos dados. Valentes

