Cristãos enfrentam violência e perseguição cinco anos após golpe militar em Mianmar
Eleições controladas pelo Exército, denúncias de crimes de guerra e ataques a igrejas agravam a crise humanitária no país
As eleições rigidamente controladas realizadas em Mianmar na última semana terminaram com a vitória de um partido apoiado pelos militares, reacendendo alertas da comunidade internacional sobre a deterioração dos direitos humanos no país. O pleito ocorreu às vésperas do quinto aniversário do golpe militar de 2021 e em meio a novas denúncias de crimes de guerra cometidos pela Junta Militar, especialmente contra minorias étnicas e religiosas como os cristãos.
A Organização de Direitos Humanos de Chin (CHRO), representando sobreviventes do estado de Chin — região predominantemente cristã no noroeste do país — apresentou um documento detalhando inúmeras atrocidades atribuídas às forças militares. Entre os delitos denunciados estão violência sexual contra uma mulher grávida, o massacre de dez pessoas incluindo uma criança, ataques deliberados a igrejas e o assassinato de um pastor e três diáconos, ilustrando um padrão contínuo de abusos que vai além de incidentes isolados. Essas informações constam de um relatório divulgado pela Portas Abertas, organização que monitora a situação dos cristãos perseguidos no mundo.
Cristãos na linha de fogo do conflito
O conflito civil em Mianmar, que envolve o Exército e uma série de grupos armados étnicos, gerou cerca de 3,5 milhões de deslocados internos, entre os quais milhares de cristãos forçados a abandonar suas casas e comunidades. A situação é especialmente grave no estado de Chin, onde cerca de 85% da população é cristã, tornando essa área um dos principais alvos da repressão militar.
Especialistas ouvidos pela Portas Abertas destacam que a perseguição não ocorre por acaso. “A ação legal movida pelos sobreviventes de Chin mostra que os abusos que enfrentaram não foram casos isolados, mas parte de um padrão mais amplo e contínuo de violência da Junta contra civis, incluindo muitos cristãos”, afirmou um analista especializado em Mianmar.
O contexto religioso também contribui para agravar a vulnerabilidade dos cristãos. Vivendo em um país onde a maioria da população é budista e associa essa fé à identidade nacional, comunidades cristãs frequentemente enfrentam discriminação, suspeita de apoio a grupos de oposição e retaliações que vão desde ataques a propriedades até a destruição de templos.
Novas acusações internacionais
No início de fevereiro, um tribunal em Timor-Leste recebeu uma denúncia formal contra dez oficiais da Junta Militar, incluindo seu líder, Min Aung Hlaing, acusados de crimes de guerra. A Junta, por sua vez, tem tentado contestar a legitimidade da ação, enquanto enfrenta outras acusações em cortes internacionais, incluindo as relacionadas à perseguição ao povo rohingya, também considerada crime contra a humanidade.
Enquanto isso, organizações de defesa dos direitos humanos e pesquisa internacional documentam ataques contínuos a igrejas e comunidades cristãs. O estado de Chin, em particular, foi palco de múltiplos ataques a edifícios religiosos desde 2021, refletindo uma escalada da violência contra minorias religiosas.
Impacto na comunidade cristã
Segundo a Lista Mundial da Perseguição 2026, que classifica os países onde os cristãos enfrentam maiores níveis de perseguição, Mianmar ocupa a 14ª posição global — um indicativo do agravamento das condições adversas para fiéis no contexto pós-golpe. O agravamento do conflito antes das eleições e o aumento da violência armada resultaram em um cenário humanitário ainda mais crítico.
Líderes religiosos e organizações humanitárias reforçam pedidos por orações, apoio internacional e maior pressão diplomática para que cesse o uso de violência contra civis e sejam respeitados os direitos fundamentais. Para muitos cristãos em Mianmar, o fim das eleições não trouxe estabilidade, mas a persistência de uma realidade marcada por medo, deslocamento forçado e sofrimento contínuo.
Fonte: Portas Abertas — “Ataques a igrejas e crimes de guerra denunciados em Mianmar” (portasabertas.org.br)

